A falta de um líder

Desde que criei o Poder em Rede, procurei sempre tratar com muita cautela o impeachment da presidente Dilma Rousseff, mantendo-o fora dos artigos e análises ofertados aos nossos leitores. A razão é muito simples: o assunto era, até então, muito mais especulação, paixão e porque não, assunto de polícia e não de política.Foi assim, quando do julgamento do mensalão e assim se manteve, até que os mais diversos indicadores apontassem para uma situação real de que o Brasil, pudesse, de fato, voltar a trocar novamente um presidente da República.

De certo, vou abordar o tema, dentro do prognóstico de que venha a desagradar, bastante, tanto os apoiadores da iniciativa, quanto os que são contrários à proposta de impedimento da presidente da República.

Em junho do ano passado, aqui no Poder em Rede, escrevi um outro artigo falando sobre a convergência do país, pelos indicadores negativos, que saíram do universo macroeconômico e foram parar na geladeira da população. Brasileiros de todas as classes sociais, que viram sua renda cair, a inflação subir e os níveis de desemprego dispararem, fruto do impacto brutal sofrido pelo setor produtivo do país. Ali alertávamos sobre como o Brasil dividido pós-eleição, poderia se unificar contra o governo, a medida que se consolidava um cenário de plena recessão.

Pois bem, passados nove meses, o atual governo não conseguiu gestar um novo ciclo de retomada e ainda viu questionada e agravada a sua permanência à frente da Presidência da República, em virtude das denúncias referentes a Operação Lava-Jato, que já frequentam os bastidores nos palácios na capital do país. As diversas tentativas de se criar uma chamada pauta-positiva e de reformas que pudessem tirar o país do atoleiro, foram combatidas pelo fogo-amigo do próprio partido da presidente - o Partidos dos Trabalhadores (PT) - que sempre criticou os ministros da Economia escolhidos por Dilma, a política econômica adotada por seu governo, bem como as propostas elaboradas, ea exempo da reforma da Previdência e a recriação da CPMF.

Combatida internamente e vendo seu isolamento crescer junto à base de sustentação no Congresso Nacional, a pauta econômica foi posta literalmente de lado, para outra menos ortodoxa, de simplesmente manter a presidente no cargo até 2018. Neste novo projeto de urgência, a tentativa de conexão com as ruas já foi abortada há muito tempo. Principalmente porque os indicadores da presidente não evoluíram nos últimos anos. A faixa de aprovação da presidente Dilma, que em julho/15 estava em 10% pelo Datafolha e que chegou a crescer para 12% em dezembro/15, volta para os mesmos 10%, no último levantamento de março/16, pelo mesmo instituto de pesquisa. Com o agravante de que os índices de reprovação passaram, no mesmo período, de 63% para 69%.

Mas com tantos problemas, por que ainda a presidente se mantém no poder?

Primeiro porque o processo é assim mesmo. O rito do impeachment tem um trâmite específico tanto na Câmara dos Deputados, como também no Senado da República. Soma-se a isso o constante processo de judicialização do fato, que tornou os Supremo Tribunal Federal, em anteparo e termômetro para todas as questões em que a situação e a oposição discutem o tema.

Segundo e mais importante, porque aqueles que defendem a substituição da atual presidente da República, ainda não foram capazes de apresentar para a nação, uma nova liderança, que além de subir a rampa, também faça o país retomar o caminho do desenvolvimento. Este para mim é o assunto mais grave. Não basta querer trocar a presidente, tem que apresentar alguma alternativa clara de poder, para que a população embarque tranquila neste processo de alternância.

Nunca é demais lembrar que vivemos em uma democracia representativa. Por ela, o povo elege, através do voto, os representantes que vão tomar decisões em nosso nome. Assim, temos o hábito de votar em pessoas. Não em partidos ou ideias. Principalmente com a proliferação de agremiações políticas, quase nenhuma delas com ideologias próprias, que possam encantar aoas eleitores. Aliás, só para efeito de registro, a Presidência da República, o Congresso Nacional e os partidos políticos são as instituições com menor índice de credibilidade junto à população, segundo o próprio Datafolha, em pesquisa realizada em julho do ano passado.

Há sim - e não é de hoje - uma completa falta de competência por parte dos partidos de oposição que querem ascender ao poder, em dar um rosto para tal alternativa. Lembremos que o Brasil passou do “mensalão” para o “petrolão”, sem que essa liderança fosse construída e apresentada ao povo brasileiro, de maneira definitiva. Tanto é assim, que neste período, os grandes nomes que emergiram como tábua de salvação foram o do ex-ministro do STF, Joaquim Barbosa – que cuidava do julgamento do mensalão – e agora o Juiz Sérgio Moro – que conduz as investigações da Operação Lava-Jato.

O primeiro chegou a ser considerado como o segundo cabo eleitoral mais importante do país, onde um em cada quatro brasileiros declararam que votariam em um candidato indicado por ele entre os anos de 2013 e 12014. O próprio Joaquim Barbosa chegou a rivalizar em 2014, nas pesquisas de intenção de voto com a presidente Dilma, em São Paulo, com 40% a 41%. No país, foi lembrado por 15% dos eleitores, contra 14% de Aécio Neves. O fenômeno se repete agora com Sérgio Moro, que aparece na última pesquisa Datafolha de março/16, já com 8% das intenções de voto, contra 14% de Aécio Neves, 17% de Lula e 17% de Marina Silva. Lula e Aécio estão em queda, pois tiveram seus nomes envolvidos em delações premiadas da Lava-Jato e Marina Silva vive uma completa ausência no debate político atual.

E qual o problema disso? Nem Joaquim Barbosa, nem Sérgio Moro são políticos e pertencem a um partido. Porém, pela ineficiência do sistema político-partidário do país, acabam preenchendo essa lacuna. Lembro sempre que não existe vácuo em política. Se você não o ocupa adequadamente, alguém o fará em seu lugar. Neste caso, o povo que está saindo as ruas, acaba fazendo essa tarefa e proclamando Joaquim Barbosa e Sérgio Moro, como defensores da nação.

Porém, não vejo a menor probabilidade de que um ou o outro togado, saia para disputar o próximo pleito presidencial. Ou antes disso, ter condições de assumir o posto de presidente da República, em virtude de um exitoso processo de impeachment ou de renúncia, já que não há fórmula possível para isso, dentro da Constituição do país.

Enfim, as oposições e simpatizantes do afastamento da presidente da República vão precisar se debruçar e acordar, nos limites estabelecidos pela Constituição, para que alguém seja apresentado como aquele que vai comandar esse processo de resgate. Não há nada de novo nisso. Quando Fernando Collor passou pelo mesmo processo, as oposições trataram de apresentar, com celeridade, o vice Itamar Franco, como a alternativa viável.

Nos cenários de hoje, o próprio vice-presidente Michel Temer, pode se tornar carta fora do baralho, caso o processo de substituição se dê pela via da cassação da chapa presidencial nas eleições de 2014, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Enfim, enquanto não houver esse consenso construído, o povo que voltou a sair em massa às ruas, corre o risco de ver sua mobilização se arrefecer, da mesma forma como aconteceu em 2015.

Sabendo da importância de se ter um líder como referência, o Partido dos Trabalhadores e o próprio Governo Federal, já trabalham com a possibilidade de retomar o comando do país, pelas mãos do ex-presidente Lula, que também vive seu drama de ser ministro e investigado na mesma Operação Lava Jato. Neste fundamento, o Palácio do Planalto tem sido mais competente que as oposições, no intuito de tentar barrar o processo de impeachment e tentar, com isso, ganhar tempo, articular com deputados e senadores - com o peso da caneta presidencial - um ambiente mínimo que permita levar essa disputa para 2018, com Lula candidato novamente à presidência da República.

Afinal, os brasileiros não querem só mudança, mas um líder que as promova. Caso contrário, podem simplesmente não migrar de um barco para outro. Enquanto isso, o Brasil segue em meio a muitas incertezas e especulações, no aguardo de quem possa assumir o poder e manter o comando do país. Aquele que melhor cumprir a tarefa de liderar, melhores condições de assumir esse espaço, terá.